sexta-feira, 12 de julho de 2013

Cáp 1- parte II

A mãe de Rosário se levanta, constrangida pela atitude da filha.

- Peço desculpas! - diz - Mas Rosário anda muito cansada esses dias. Venham, eu lhes acompanho até a porta.

Alberto se levantou,e ele e Tomás seguiram a mãe de Rosário pela sala até a porta. 

- Não há pelo que se desculpar, sra. Aparecida! Para o meu jovem Tomás o comportamento de Rosário pode ser novidade, mas para mim, já estou mais do que acostumado com o jeito dela. - respondeu Alberto, com bom humor. Aparecida riu.

- Sim, minha filha sempre teve um gênio difícil, mas compreendo seus desejos de não vender o sítio! O pai a criou aqui e ela tem um carinho e apego muito grande por este lugar! - Tomás, que até então estava com uma expressão de zanga, olhou para Aparecida nesse momento. Ela o olhou de volta e subitamente, ele desviou o olhar.

Aparecida abriu a porta e o ar da noite fria veio com uma rajada de vento. O Sol já havia se escondido completamente, dando lugar para milhares de estrelas.  Alberto colocou seu agasalho e pegou a chave do carro. 

- Muito obrigado pela hospitalidade, Sra. Aparecida! Tenha uma boa noite! - e dizendo isso, beijou a mão de Aparecida e foi para o carro. Tomás esperou até que Alberto entrasse no carro e virou-se para Aparecida.

- Sinto muito pela forma como expus o problema de vocês! Não desejava ser grosseiro!

Aparecida lhe deu um sorriso bondoso.  - Está tudo bem, querido! Você não nós disse nada que já não soubessemos!

Tomás agradeceu com um leve aceno de cabeça. Alberto buzinou e Tomás despediu -se de Aparecida e seguiu para o carro. Aparecida os acompanhou com o olhar até que sumissem pelo horizonte, e do andar de cima da casa, em seu quarto, Rosário também os acompanhou.


~


Rosário está deitada em sua cama, olhando para o teto. Imaginava há quanto tempo estava assim, mas seus pensamentos se voltam para o que a vinha prendendo em seu quarto nas últimas horas. Já era a quinta vez que Alberto vinha para lhe propor a compra do sítio. Por que? Afinal, como o Sr. O' Ryan mesmo o havia dito " ele oferece mais do que o sítio vale!". Não poderia haver lucro em suas terras. O solo precisava de tratamento, não haviam mais animais e a locação não era uma  das melhores da região, então por que? As palavras de Tomás O' Ryan não saiam de sua cabeça "Seu sítio não dá lucros", "sua mãe é quase idosa", " não possui carros", era irritante. Ele estava certo, se algo de ruim acontecesse não haveria nada que ela pudesse fazer. Ela estava prestes a chorar quando ouve alguém bater em sua porta.

- Rosário? Filha? Não vem jantar? - pergunta uma voz preocupada do outro lado da porta.

Rosário respirou fundo, tentando disfarçar a voz chorosa.

- Em um minuto desço! Podem ir comendo sem mim! -  E ouvindo os passos de sua mãe se afastando, ela deita a cabeça no travesseiro.




~


- E então? - pergunta uma moça baixinha de cabelos ruivos quando vê Aparecida surgir pela porta da cozinha.

- Disse que já desce, para começarmos a comer sem ela! - Aparecida suspira cansada, senta-se na mesa e cobre o rosto com as mãos. - não sei mais o que fazer, Virgínia! 

- Calma Dna. Aparecida! - disse se aproximando da patroa e massageando seus ombros. - Tenho fé na menina! Ela vai achar uma solução!

- E se ela estiver mandando a solução embora pela quinta vez, Virgínia? Sem a garantia de uma sexta? O dinheiro que o pai dela nos deixou já está acabando, já vendemos todos os animais e o carro, isso sem falar que não podemos plantar nada atá tratarmos o solo. Não sei até quando vamos poder comprar comida, ou até mesmo pagar seu salário, Virgínia!

- Tenha fé, Dna. Aparecida, as coisas sempre pioram antes de melhorarem! E quanto pior estiver, melhor vai ficar!

Virgínia era dessas pessoas que sempre tinham o pensamento positivo. Conseguia-se ler força e honestidade em seus olhos. Trabalhava no sítio desde que Maria do Rosário nascera e afeiçoara-se à família, tanto quanto a família à ela.  Fez várias promessas para Santo Expedito quando Seu Bento, pai de Rosário, adoecera, e fez uma última à ela mesma quando ele faleceu, de que independente do que aconteceria dali por diante, jamais abandonaria Rosário ou Dna. Aparecida.

- Sinto muito por toda essa confusão! 

Virgínia e Dna. Aparecida olharam juntas para a porta da cozinha e viram Rosário encostada no batente da porta. Ela observava a cena há bastante tempo.

- Filha - começou Dna. Aparecida - acha realmente que tomou a decisão acertada?! 

- Não sei, mãe! Começo a pensar que não! - Rosário sentou-se na mesa ao lado da mãe. - na verdade, acho que se eles voltassem, eu me daria ao trabalho de ouvir a oferta dessa vez!

- Meu medo é que eles não voltem, filha! - disse segurando as mãos de Rosário. 

- Nesse caso, teremos uma resposta divina! Se voltarem, ouço a proposta, se não, tomei a decisão certa!

- Acho que você deixou as coisas simples demais, menina! - Virgínia servia a comida para as duas. - Não acho que essa seja a melhor maneira de pensar!

- Estou indecisa, Virgínia! -  explicou-se - Nesse caso, largo tudo nas mãos de Deus!

A conversa foi interrompida por batidas na porta da frente. As três se entreolharam.


- Vixi Nossa Senhora!  - Virgínia foi em direção à sala para abrir a porta. - Já vai!

- Será?! - Aparecida olhou para Rosário.

- Nem pensar! - Rosário respondeu aos olhares de sua mãe, porém ela própria achava  que Aparecida tinha razão. Sentia seu coração acelerar.

Em segundos, Virgínia voltou para a cozinha, seguida por um homem, mas não era nenhum dos homens que estivera no sítio mais cedo. Ele era mais alto e tinha o semblante gentil e de belas feições, suas roupas estavam levemente sujas e gastas, conseguidas através de uma intensa caminhada. Rosário levantou-se da mesa, junto com sua mãe e as duas o cumprimentarem.

- Peço desculpas às moças pela visita fora de hora - começou com um tom de voz muito educado - é que está muito escuro lá fora e acho que me perdi pela estrada, aqui foi a única luz que avistei. 

- Está tudo bem! - disse Rosário, meio atrapalhada.- No que podemos lhe ajudar?

- Por um acaso aqui é o sítio do seu Bento? - perguntou o rapaz com um belo e largo sorriso.

Um silêncio se fez pela cozinha. Rosário, Aparecida e Virgínia se entreolharam e depois olharam para o rapaz. 


Continua.....




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