A mãe de Rosário se levanta, constrangida pela atitude da filha.
- Peço desculpas! - diz - Mas Rosário anda muito cansada esses dias. Venham, eu lhes acompanho até a porta.
Alberto se levantou,e ele e Tomás seguiram a mãe de Rosário pela sala até a porta.
- Não há pelo que se desculpar, sra. Aparecida! Para o meu jovem Tomás o comportamento de Rosário pode ser novidade, mas para mim, já estou mais do que acostumado com o jeito dela. - respondeu Alberto, com bom humor. Aparecida riu.
- Sim, minha filha sempre teve um gênio difícil, mas compreendo seus desejos de não vender o sítio! O pai a criou aqui e ela tem um carinho e apego muito grande por este lugar! - Tomás, que até então estava com uma expressão de zanga, olhou para Aparecida nesse momento. Ela o olhou de volta e subitamente, ele desviou o olhar.
Aparecida abriu a porta e o ar da noite fria veio com uma rajada de vento. O Sol já havia se escondido completamente, dando lugar para milhares de estrelas. Alberto colocou seu agasalho e pegou a chave do carro.
- Muito obrigado pela hospitalidade, Sra. Aparecida! Tenha uma boa noite! - e dizendo isso, beijou a mão de Aparecida e foi para o carro. Tomás esperou até que Alberto entrasse no carro e virou-se para Aparecida.
- Sinto muito pela forma como expus o problema de vocês! Não desejava ser grosseiro!
Aparecida lhe deu um sorriso bondoso. - Está tudo bem, querido! Você não nós disse nada que já não soubessemos!
Tomás agradeceu com um leve aceno de cabeça. Alberto buzinou e Tomás despediu -se de Aparecida e seguiu para o carro. Aparecida os acompanhou com o olhar até que sumissem pelo horizonte, e do andar de cima da casa, em seu quarto, Rosário também os acompanhou.
~
Rosário está deitada em sua cama, olhando para o teto. Imaginava há quanto tempo estava assim, mas seus pensamentos se voltam para o que a vinha prendendo em seu quarto nas últimas horas. Já era a quinta vez que Alberto vinha para lhe propor a compra do sítio. Por que? Afinal, como o Sr. O' Ryan mesmo o havia dito " ele oferece mais do que o sítio vale!". Não poderia haver lucro em suas terras. O solo precisava de tratamento, não haviam mais animais e a locação não era uma das melhores da região, então por que? As palavras de Tomás O' Ryan não saiam de sua cabeça "Seu sítio não dá lucros", "sua mãe é quase idosa", " não possui carros", era irritante. Ele estava certo, se algo de ruim acontecesse não haveria nada que ela pudesse fazer. Ela estava prestes a chorar quando ouve alguém bater em sua porta.
- Rosário? Filha? Não vem jantar? - pergunta uma voz preocupada do outro lado da porta.
Rosário respirou fundo, tentando disfarçar a voz chorosa.
- Em um minuto desço! Podem ir comendo sem mim! - E ouvindo os passos de sua mãe se afastando, ela deita a cabeça no travesseiro.
~
- E então? - pergunta uma moça baixinha de cabelos ruivos quando vê Aparecida surgir pela porta da cozinha.
- Disse que já desce, para começarmos a comer sem ela! - Aparecida suspira cansada, senta-se na mesa e cobre o rosto com as mãos. - não sei mais o que fazer, Virgínia!
- Calma Dna. Aparecida! - disse se aproximando da patroa e massageando seus ombros. - Tenho fé na menina! Ela vai achar uma solução!
- E se ela estiver mandando a solução embora pela quinta vez, Virgínia? Sem a garantia de uma sexta? O dinheiro que o pai dela nos deixou já está acabando, já vendemos todos os animais e o carro, isso sem falar que não podemos plantar nada atá tratarmos o solo. Não sei até quando vamos poder comprar comida, ou até mesmo pagar seu salário, Virgínia!
- Tenha fé, Dna. Aparecida, as coisas sempre pioram antes de melhorarem! E quanto pior estiver, melhor vai ficar!
Virgínia era dessas pessoas que sempre tinham o pensamento positivo. Conseguia-se ler força e honestidade em seus olhos. Trabalhava no sítio desde que Maria do Rosário nascera e afeiçoara-se à família, tanto quanto a família à ela. Fez várias promessas para Santo Expedito quando Seu Bento, pai de Rosário, adoecera, e fez uma última à ela mesma quando ele faleceu, de que independente do que aconteceria dali por diante, jamais abandonaria Rosário ou Dna. Aparecida.
- Sinto muito por toda essa confusão!
Virgínia e Dna. Aparecida olharam juntas para a porta da cozinha e viram Rosário encostada no batente da porta. Ela observava a cena há bastante tempo.
- Filha - começou Dna. Aparecida - acha realmente que tomou a decisão acertada?!
- Não sei, mãe! Começo a pensar que não! - Rosário sentou-se na mesa ao lado da mãe. - na verdade, acho que se eles voltassem, eu me daria ao trabalho de ouvir a oferta dessa vez!
- Meu medo é que eles não voltem, filha! - disse segurando as mãos de Rosário.
- Nesse caso, teremos uma resposta divina! Se voltarem, ouço a proposta, se não, tomei a decisão certa!
- Acho que você deixou as coisas simples demais, menina! - Virgínia servia a comida para as duas. - Não acho que essa seja a melhor maneira de pensar!
- Estou indecisa, Virgínia! - explicou-se - Nesse caso, largo tudo nas mãos de Deus!
A conversa foi interrompida por batidas na porta da frente. As três se entreolharam.
- Vixi Nossa Senhora! - Virgínia foi em direção à sala para abrir a porta. - Já vai!
- Será?! - Aparecida olhou para Rosário.
- Nem pensar! - Rosário respondeu aos olhares de sua mãe, porém ela própria achava que Aparecida tinha razão. Sentia seu coração acelerar.
Em segundos, Virgínia voltou para a cozinha, seguida por um homem, mas não era nenhum dos homens que estivera no sítio mais cedo. Ele era mais alto e tinha o semblante gentil e de belas feições, suas roupas estavam levemente sujas e gastas, conseguidas através de uma intensa caminhada. Rosário levantou-se da mesa, junto com sua mãe e as duas o cumprimentarem.
- Peço desculpas às moças pela visita fora de hora - começou com um tom de voz muito educado - é que está muito escuro lá fora e acho que me perdi pela estrada, aqui foi a única luz que avistei.
- Está tudo bem! - disse Rosário, meio atrapalhada.- No que podemos lhe ajudar?
- Por um acaso aqui é o sítio do seu Bento? - perguntou o rapaz com um belo e largo sorriso.
Um silêncio se fez pela cozinha. Rosário, Aparecida e Virgínia se entreolharam e depois olharam para o rapaz.
Continua.....
Contos, Causos e Curiosidades
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Cáp n° 1
Era o fim de um belo dia de outono. O Sol terminava de se esconder, sumindo entre as copas das árvores e deixando apenas pequenos feixes de luz vermelha atingirem o céu amarelado.
No meio desse espetáculo, uma mulher recolhe as roupas que estavam secando no varal. Contagiada pela paz trazida na paisagem, ela canta suavemente uma música que aprendera na infância.
- Menina, vem logo pra dentro! Sua mãe está te chamando! - grita uma voz vinda da porta da cozinha.
- O que ela quer? - Ela pergunta com um leve mau- humor, pois aquela brusca interrupção fez com que deixasse cair o cesto de roupas, que estava em sua mão.
- Só me disse para chamá-la! Deixe essa roupa ai que eu recolho!
- Não, não precisa! Já terminei! Você pode levar o cesto pra lavanderia? - perguntou se aproximando da figura baixa e de cabelos ruivos que falava com ela.
- Levo sim! Agora vai lá pra dentro, sua mãe tá na sala de visitas! - se aproximou do ouvido da outra e cochichou - parece que aquele cara esquisito veio fazer a oferta de novo!
- Ah, pelo amor de Deus! - e, impaciente, adentrou à casa em direção à sala de visitas.
A casa era simples, de forma geral. Não dá para se conseguir muito luxo quando se mora em um sítio. Apesar disso, sua mãe fazia o melhor que podia para deixar a casa confortável e agradável para todos. Um exemplo é a sala de visitas, tinha as paredes brancas, sofás e poltronas espalhados, e uma mesinha no centro da sala. Fora as almofadas, revistas, livros e um pequeno piano de madeira clara. Tudo isso distribuído de forma organizada. Mas apesar dos esforços de sua mãe para tornar a sala um local agradável, nada naquele momento fazia com que ela achasse qualquer coisa agradável. Isso se devia pela presença do homem de cabelos grisalhos, que estava na sala com sua mãe neste exato momento.
- Me chamou, mãe? - disse procurando evitar olhar para o homem que tanto detestara.
- Sim, Rosário! Sente - se por favor! O senhor Alberto veio refazer a sua proposta e gostaria que você a escutasse!
- Não acho que a minha resposta será diferente das outras propostas que já me fez! - olhando agora diretamente para Alberto, notou a presença de um outro rapaz que não conhecia.
Era mais novo que Alberto, devia ter quase trinta anos. Era alto e estava vestido com um terno preto, tinha um jeito arrogante apesar da pouca idade.
- Bem Srta. Rosário, eu espero que essa proposta agrade a ambos dessa vez! Eu bem sei o quanto a senhorita é difícil de agradar! - Alberto riu, na tentativa de amenizar o clima, porém ninguém o acompanhou. A mãe de Rosário deu - lhe um leve sorriso, por pena. O homem que o acompanhava mostrou - se embaraçado.
- Não sou difícil de agradar, sr. Alberto, apenas não quero vender o sítio. Por mais tentador que possa ser essa sua nova oferta só estará perdendo o seu tempo! Minha resposta será sempre a mesma!
Enquanto Alberto pensava em algo para que pudesse responder, o homem que o acompanhava se adiantou.
- A senhorita prefere usar sempre a teimosia ao invés da cabeça? Seu sítio não dá lucros, tem uma distância considerável da cidade mais próxima, algo sobre o que a senhorita deveria pensar já mora sozinha com sua mãe quase idosa e apenas uma empregada. Não possui carros e já venderam todos os animais. O sr. Alberto está oferecendo muito mais do que esse sítio realmente vale!
- O senhor sabe muito sobre a nossa situação! - disse Rosário se levantando do sofá - o que é um problema já que eu nem ao menos sei o seu nome!
- Perdão, - interrompeu Alberto - pela minha falta de educação! Este é o sr. O' Ryan, é um novo empregado na minha empresa.
- Tomas O' Ryan, é um prazer conhecê-la! - disse secamente enquanto estendia a mão para um cumprimento.
- Maria do Rosário, mas acho que você já sabe disso! - respondeu retribuindo o cumprimento. - De qualquer forma, sr. O' Ryan, o senhor está correto sobre a situação do meu sítio, porém já o aviso que mesmo diante dessa situação, não pretendo vendê-lo. Agradeço pela proposta, mas a recuso! Uma boa noite, senhores e passem bem! Ah sim, tenham cuidado com a estrada, afinal como o sr. O' Ryan disse, a cidade mais próxima fica a uma distância considerável! - e dizendo essa última frase, Maria do Rosário desapareceu pela porta da sala.
Continua....
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